O Cone do Amor
MPB
Olhe do ponto.
A nossa consciência não caminha em linha reta.
Gira sem parar na órbita de um toro... Um anel de raio de dimensão discreta.
Dando voltas sobre o mesmo centro, o tempo todo, o tempo todo, sem meta.
E percebe apenas o eco dos próprios sentimentos.
A cada volta nesse anel, uma vida inteira se repete.
A ilusão é perfeita porque os cenários mudam.
A roupagem é nova. Os personagens são outros.
Novos porquês, novos palcos, novas canções... com letras iguais.
Você não vive os seus sentimentos...
Novas canções com letras iguais.
Mas aí... algo quebra.
A consciência vê o ciclo, o giro, o labirinto
De entradas e saídas do próprio mito.
E só isto basta.
Sem transição. Sem processo.
Dá-se a mágica do retrocesso.
Um salto quântico.
Sumir de uma órbita, reaparecer em outra.
Salto sem caminho para um novo toro.
Mais alto, mais estreito...
Onde a canção se repete, mas com menos letras a se traçar.
A consciência sobe. Desapega. Começa a despertar.
No topo, a geometria se esgota.
Fim do anel.
Fim da rota.
Sem raio, sem curva, sem distância.
Cessa a velha e repetitiva infância.
Ali só existe... um ponto.
E o ponto é geométrico: não tem dimensão.
Não ocupa espaço, não aceita limitação.
O que não se mede... é infinito.
Livre do ciclo, livre do grito.
Sem bagagem, sem o peso do "eu"...
A consciência, enfim, se funde no Amor.
